O Edifício São Lucas, na Rua França Pinto, é um daqueles prédios que definem a Vila Mariana: lojas no térreo, apartamentos nos nove andares acima, garagem subterrânea e portaria que conhece todo mundo pelo apelido. Construído nos anos 1970, é um condomínio misto antes de o termo virar moda em lançamentos imobiliários. E, como muitos edifícios dessa geração, convive com uma tensão antiga: até que horas o comércio pode fazer barulho sem incomodar quem dorme no quinto andar?

Na assembleia de maio, a pergunta gerou três horas de debate — e nenhuma votação conclusiva. O síndico, engenheiro aposentado Carlos Menezes, pediu adiamento depois que duas faixas de proposta (silêncio absoluto após 22h versus tolerância até meia-noite nos fins de semana) empatarem em quórum.

O que está em jogo

No térreo funcionam quatro estabelecimentos: uma lavanderia, um pet shop, um restaurante japonês e uma adega que faz degustação às sextas. Os moradores não reclamam da lavanderia nem do pet shop — o foco é o japonês, que atende até 23h de quinta a sábado, e a adega, cujos eventos de vinho às sextas costumam ir além da meia-noite.

"Comprei o apartamento sabendo que tinha restaurante embaixo", diz a professora Ana Lúcia, do oitavo andar. "O que mudou foi o volume da música e a frequência das entregas de moto após as dez." Do outro lado, o dono do japonês, Kenji Watanabe, argumenta que horário reduzido inviabiliza o turno da noite, responsável por 40% do faturamento.

"Não é falta de diálogo. É que 'meia-noite' para quem trabalha de manhã e 'meia-noite' para quem fecha cozinha não significam a mesma coisa." — Carlos Menezes, síndico

Precedentes no bairro

Condomínios mistos não são exceção na região. A Aba do Bairro consultou três síndicos de prédios semelhantes num raio de quinze quarteirões. Dois adotaram "zonas de convivência" com horários diferenciados por dia da semana. Um terceiro criou comissão de convivência com representantes de lojistas e moradores — modelo que o São Lucas estuda replicar.

A Prefeitura informou que não interfere em regulamentos internos de condomínio, mas que barulho acima dos limites da lei municipal (Lei de Silêncio Urbano) pode ser objeto de fiscalização se houver denúncia formal.

Propostas na mesa

Entre as sugestões discutidas na assembleia estão: isolamento acústico na laje do térreo (custo estimado em R$ 180 mil, rateado entre unidades e lojas), limitação de eventos na adega a duas sextas por mês, e instalação de sensor de decibéis com registro automático — ideia que parte dos moradores considerou excessiva e que comerciantes classificaram como "clima de vigilância".

Kenji ofereceu fechar às 22h30 de domingo a quarta, mantendo horário estendido apenas de quinta a sábado. A adega ainda não apresentou contraproposta formal.

Próxima reunião

O síndico marcou nova assembleia para 15 de junho, com mediação de um advogado especializado em direito condominial — indicado pela própria administradora do prédio. O objetivo é chegar a um acordo antes que alguém acione a justiça ou a fiscalização.

Ana Lúcia, que inicialmente defendia silêncio às 22h em todos os dias, disse ao final da reunião que "topa conversar se houver boa-fé dos dois lados". Kenji concordou em levar à próxima assembleia um plano de redução de ruído na área de delivery. Pequeno passo — mas, num prédio onde vizinhos dividem elevador há décadas, passos pequenos às vezes são o que há.